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  • Flaviana Tannus - 1968

Raízes, renúncia e buquê

Três de janeiro, primeiro domingo do ano. Chovia devagar. Ocupei meu dia para libertar um antigo projeto: soltar as orquídeas dos vasos de cerâmica e hospedá-las nos caules das árvores. Eram mais de cem. Catleias, brássias, falenópsis e outras. Sei os nomes científicos pois pesquisei num livro para iniciantes no cultivo de orquídeas. Ganhei várias espécies de presente e outras tantas adquiri para enfeitar minha casa. Estavam dispostas em cavalete num bosque de árvores e plantadas naqueles vasos com furos nas laterais por onde saem as raízes. Sem flores nem sinal de brotos. Eram só folhas e hastes secas. Quando as retirei dos vasos, pude reconhecer raízes sadias e como a saúde da raiz reflete na cor da folha.


Elas estavam ali à espera do que?


Há anos me imponho o dever de me tornar uma cultivadora e quem sabe chegar a ser especialista em orquídeas, orquidófila, uma perspicaz conhecedora das inúmeras espécies, sabendo nome e origem. Esse tempo nunca chegou. A cada ano, renovo minha promessa e as orquídeas ficam lá à sombra e à deriva sem cuidados básicos, ao sabor de que a natureza cumpra o seu papel. No final do ano e já no ensaio de cumprir com a tarefa de me tornar “a tal cultivadora de orquídeas”, tentei salvar um sofrido rizoma quase morto. Pesquisei vários vídeos na internet: borrifar canela, embalar com algodão e manter numa pequena estufa caseira. Neste dia percebi que não levo jeito algum para o posto. Aliás, sempre soube. Quando não avistei nenhuma reação da planta, desisti e acomodei o frágil rizoma no caule de uma árvore. No caule a orquídea tem mais chances de florescer e se espalhar, pois elas tem um insólito modo de viver: retiram seus alimentos do ar ou de alguns detritos em decomposição nas cavidades das pedras ou no vão dos galhos que lhes servem de suporte. Nesses locais, as orquídeas têm a capacidade de colher seu próprio alimento, o que é quase impossível acontecer quando estão num vaso.


O fato é que meu gosto pelas orquídeas está sustentado em dois alicerces. O primeiro é herança das aulas de biologia do colegial. Claudete, minha professora, era uma desenhista de mão cheia e eu tentava copiar os desenhos de botânica que ela fazia na lousa. O segundo é comum: flores para enfeitar a casa. Simples assim.


O que estou realizando quando devolvo as orquídeas a seu habitat?


Parece que estou libertando-as. Mas estou me libertando!


O que escoa quando me libero da realização de um projeto? Me liberto do quê? O que escorre com a ruptura de uma repetição travestida de originalidade? Ao libertar um ideal encarcerado com início sempre adiado, renuncio e desocupo a entulhada lista de afazeres que sustentam ideais e abro espaços. Respiro. Há silêncio e vazio. Sem cuidado, sem prazo e nem pressa será que vou olhar buquês de flores exóticas que jorram das fendas dos troncos?

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