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  • Flaviana Tannus - 1968

Para onde a-palavra vai?

Atualizado: Ago 27

Quando nasci, o mundo já estava povoado pelas palavras. Cresci sob a batuta da curiosidade por histórias contadas ou inventadas e me enveredei pelos campos da arte, da psicanálise e recentemente da escrita.

No rascunho de um lugar para a prática da psicanálise, aspirei um espaço múltiplo para um consultório com biblioteca e uma ampla sala de estudos para transmissão da psicanálise em interlocução com outros campos. Para desenhar o ambiente, uma mesa centenária herança de família, fora colocada na sala ainda vazia. No restauro do objeto pedi para conservar uma pequena fenda que existia no tampo na altura de uma das gavetas. A falha guarda histórias narradas por minha avó sobre seu pai, meu bisavô. Ela contava que ele tinha como costume apoiar o cotovelo na mesa e fitar a rotina da família em seus afazeres domésticos, enquanto jogava as brasas de seu cigarrinho de palha sempre no mesmo lugar no tampo. Com o hábito do gesto, a madeira apodreceu e abriu a pequena fenda.


O oco atiça o olhar e provoca inquietações: “Você viu que a mesa tem um buraco?”, “Desde quando esse buraco esta aqui?”, “A mesa já veio com esta imperfeição?”. O desconforto que circunda a falha, sublinha algo familiar: o vazio causa estranheza! Ao redor do buraco, brotam palavras como tentativa de reparar, restaurar, tampar a deformidade. Essa experimentação acenou o nome para o espaço plural: a-palavra.


Toda palavra tem moradia entre dois (vãos, hiatos, vazio, lacuna) espaços em branco. Palavra abriga um arranjo de letras ou sons que se filiam a uma ideia regida por regras de uma língua, que orquestram o pensamento humano num vocábulo fonético. Palavra veste, traveste, reveste, cobre, descobre, encobre, acalenta, abriga, causa angustia... Palavra é gatilho e trampolim para içar algo que decifre uma ideia. Expressões com a palavra ipsis litteris me ajudam a explicar: Lançar a palavra na mesa; dar a palavra; sem palavras; medir as palavras; não dê uma palavra; pesar as palavras; santas palavras; ter palavras; a última palavra; a palavra é; tirar a palavra da boca; qual é a palavra ?


No cenário pandêmico, para onde a-palavra vai?


Com o mundo desacelerado pela vida ameaçada por um inimigo invisível surgem de todos os cantos palavras que tentam decifrar a experiência que não tem previsão para terminar. Perdemos o controle e não sabemos como tudo isso vai findar, muito menos as consequências para a civilização. Escutamos algo como: reinventar a vida, fins de tempos, nova era, ano bíblico, e por aí vai. Buscamos em nosso acervo de memória a tradução para esta avassaladora experiência. Em busca por respostas, rastreamos palavras. Não sabemos ficar sem falar, embora o segredo esteja em esboçar perguntas.


Foi na aposta por manter o vazio esculpido na mesa, que emergiu o espaço a-palavra como um lugar para desarranjar certezas, incitar pausas para que algo do inconsciente possa despontar, convocar interrogações ou provocar silêncios quando faltam palavras.

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