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  • Flaviana Tannus - 1968

Agapanthus

Atualizado: Set 28

Flaviana Tannus

Verão 2020.


Dezessete de Março de dois mil e vinte. O verão estava no fim quando a pandemia nos isolou e colocou a vida de cabeça para baixo. Em meu jardim ainda haviam parcas flores nas hastes dos agapanthus.

Agapanthus é uma planta rústica originária da África. Nos anos cinquenta, Roberto Burle Marx trouxe as primeiras mudas para o Brasil. Em grego, ágape é amor e panthur é flor. Flor do amor. Para florir a espécie exige pouco do solo e se desenvolve tanto em áreas ensolaradas como em áreas sombreadas. Os agapanthus florescem independente do cuidado humano. Os botões que gestam as flores surgem na passagem da estação da primavera para o verão.

Após três estações, reinam em meu jardim os brotos na ponta das hastes dos agapanthus. Já é Dezembro e a pandemia avança. Não há clima de festividades com o cenário marcado pela iminência de adoecimento e perdas. Sem ares para confraternizações. Sem encerramento de ciclos. Sem festas de passagem de ano. Sem.

O que o impedimento pode gerar? Como a interdição pode abrir espaços para que algo emerja desta experiência sem data para terminar? Onde encontrar acalanto?

Recorro ao filme Acalanto (2016), curta metragem que o cineastra maranhense Arturo Saboia produziu baseado no conto a carta do escritor moçambicano Mia Couto. Do enredo colho a seguinte indagação: frente ao insuportável que não cessa de se exibir onde e com quem inventar sussurros que abram espaços para seguir? Quais os efeitos quando se interrompe uma cadeia de repetição e se lança a experimentar o novo?

Agapanthus e acalanto tem proximidades sonoras. Mas como se aproximam?

Enquanto o agapanthus resiste como uma planta que retira o nutriente ofertado pelo solo mesmo precário e floresce independente do cuidado, o acalanto é a espera de uma voz que embale para que a criança adormeça.

Acalanto embala,

Agapanthus floresce

Diante a um cenário precário que se apresenta com impedimentos, sofrimentos e desencantos como rastrear um som que embale o corpo a adormecer mas crie uma voz para despertar?

Em tempos de restrições, como fazer a travessia de uma estação a outra criando espaços para algo surgir?

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